Friday, October 11, 2002

Este texto foi extraído de uma matéria no jornal local do Amazonas, o "A Crítica".

Esses meninos brasileiros!


[ Marcelo Ramos (*) ]

Tomados por um dever cívico, embarcaram levando em seus braços a democracia, em suas consciências a crença de um Brasil melhor, em seus corações o amor pela pátria. Esses meninos brasileiros, realmente acreditaram que fariam história, que a democracia dependia da sua parcela de sacrifício, que levavam naquelas urnas a esperança de brasileiros esquecidos, mal-tratados, de um povo heróico que vive e acredita na vida apesar dos sacrifícios que ela lhes impõem.

Partiram dezenas, todos imbuídos do mesmo espírito. Mas nem todos voltaram. Daqueles meninos brasileiros, três ficaram pelo caminho, deram suas vidas pelo Brasil, as lágrimas dos céus foram mais fortes que a esperança, que a abnegação pela vida, que o alto valor da missão desempenhada. Nesse momento, em que deram a vida pela pátria, em que morreram pela democracia, igualaram-se aos grandes mártires brasileiros.

Tornaram-se três Tiradentes, três Castros Alves, três Zumbis dos Palmares, três Honestinos Guimarães, tornaram-se três dos milhões de brasileiros que morreram pela pátria heróis e anônimos, meninos grandes homens, mártires dos simples. Quisera eu que outros meninos brasileiros acreditassem na vida como estes acreditavam. Quisera eu que outros meninos brasileiros amassem a democracia como esses que morreram a levando em seus braços. Quisera eu que outros meninos brasileiros amassem a pátria como eles amavam. As incertezas e o desespero ficam, mas certamente sumiram tomadas pelo tempo. O que nos consola é quem nem o tempo, nem a irresponsabilidade de uma pátria que não ama os seus meninos como eles a amam, conseguiram apagar da história a alegria e o heroísmo desses meninos brasileiros.

Uma homenagem aos três estudantes da Universidade do Amazonas mortos em São Gabriel da Cachoeira, quando levavam as urnas eletrônicas para eleição.

* O autor é advogado

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